SEGUE-ME?

19 de maio de 2011

"Fazer-se"


Sim, estou em construção
E o alicerce ainda não está pronto
Não tem data definida para terminar
Ainda é frágil, precisa de muita sustentação
Ainda teme os ventos da solidão
Ainda chora pelas limitações
E sucumbe, e reconstrói,
Tantas e tantas vezes...

Processo árduo esse de "fazer-se", 
E intérmino...


[Naná]

4 comentários:

  1. Preciso muito de...

    Ficar longe...

    Estar silêncio...

    Dar um tempo...

    Pensar no que estou (ou estive) pensando...

    Ir para um lugar inacessível...

    "Talvez" eu volte, ou talvez não!...

    Se demorar demais lembre-se da "menina e o pássaro encantado"...

    kisses in the heart...

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  2. Sur la motion*

    O movimento, a transformação constante sempre foi uma das angustias do ser vivo, temos essa sensação incomoda de que a cada dia que envelhecemos morremos um pouco, que nossa passagem por aqui é curtíssima, e que nada sabemos o que vira depois - se é que vira alguma coisa. Por causa dessa angustia a filosofia, em especial a partir do Platonismo (mas não só), inventou a idéia de que o ser não muda. Platão dizia que independentemente das mudanças e transformações que vivemos algo permanece: são as "idéias", as "formas". Pode-se ser que algumas delas se tornem com o tempo feias, entretanto, isso não prejudica a forma do belo, essa jamais muda; é que acha também Aristóteles:

    "Os seres físicos naturais são os seres que tem em si mesmo o principio de sua mudança, a mudança pode afetar a qualidade, o lugar, até o próprio ser. Toda mudança se faz a partir de alguma coisa em direção a outra coisa e supõem-se um sujeito que permanece idêntico. Ela tem, portanto três princípios: a propriedade inicial, por exemplo, o branco, a propriedade final, por exemplo, o vermelho, e a matéria que recebe essas propriedades o homem branco que se torna vermelho. A matéria que possui uma forma possui uma propriedade, mas para mudar, ela deve estar apta a receber outra" (comentarista de Aristóteles).

    Mas tanto Aristóteles quanto Platão se equivocam, pois imaginam que apesar das mudanças algo permanece, quando em verdade, tudo muda.

    “Somos o tempo. Somos a famosa
    parábola de Heráclito o Obscuro.
    Somos a água, não o diamante duro,
    a que se perde, não a que repousa.
    Somos o rio e somos aquele grego
    que se olha no rio. Seu semblante
    muda na água do espelho mutante,
    no cristal que muda como o fogo.
    Somos o vão rio prefixado,
    rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
    Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
    A memória não cunha sua moeda.
    E no entanto há algo que se queda
    e no entanto há algo que se queixa.”

    (Poema: Jorge Luiz Borges - São os rios)

    As pessoas em geral esperam mudanças, sonham com transformações futuras, ou na melhor das hipóteses, se propõem há uma vida nova, há um novo habito, há uma nova pratica, no entanto, sem se darem conta, as transformações de fato esta dentro de cada um e aqui.

    Alguns estudiosos dizem que somos sistemas fechados, quer dizer, quem em principio nos posicionamos de forma defensiva agarrando-nos a nossas certezas. Percebemos os sinais do ambiente, das pessoas, do mundo, que mesmo sendo interessantes, preferimos inicialmente não considerar. Por outro lado, existe uma outra parte da gente que quer renovar-se, que flerta com as novidades sem que isso produza mudanças de imediato. Com o tempo, esses sinais continuamente emitidos pelo ambiente externo (e quando atraentes) vão minando nossas defesas e encontrando ponto de apoio dentro de nós e lá se instalando, logo em seguida, vão se expandindo, e sem percebemos mudamos. É um processo demorado, influencias passageiras, ações eventuais captadas do ambiente, mesmo que interessantes não se estabelecem facilmente. Para tanto, é preciso duas condições: que nós queiramos mudar, isto é, que não estejamos satisfeito conosco e/ou que estejamos dispostos e abertos a informações novas e instigantes do mundo durante certo período de tempo.

    "As doenças crônicas da alma assim como as do corpo surgem, muito raramente, por motivo de uma única grave transgressão a razão do corpo e da alma, geralmente de múltiplas pequenas imperceptíveis negligencias. Mesmo quem queira salvar sua alma precisa refletir sobre as mudanças dos pequenos hábitos” (Nietzsche).

    Nietzsche fala que do partido inicial de pequenos hábitos tudo começa a mudar. Em geral, as mudanças geram intranqüilidade. Charles Baudelaire falava que:

    "Há em todas as mudanças algo, ao mesmo tempo, de infame e de agradável, algo que conserva traços de infidelidade e de mudança de casa."

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  3. O grande pensador das mudanças foi sem duvida o francês Henri Bérgson*, ele expressava que o mau das pessoas é sempre buscar pontos fixos em que se agarrar, e que a filosofia antiga (platônica e aristotélica a exemplo) e também muito da filosofia moderna, prefere trocar a experiência viva das pessoas pelo seu esqueleto fixo, seco e vazio. “As pessoas”, segundo ele, “não olham para a borboleta, preferem manter os olhos na crisálida”, quer dizer, naquele invólucro da lagarta antes de virar borboleta, "despertemos da crisálida", falava, “vamos olhar para o movimento, a dança, a transformação em vez de ficar olhando esbugalhado o morto, o imóvel”, afinal, “a historia fazemos nós”.

    "Desconfiai do mais trivial,
    na aparência singelo.

    E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

    Suplicamos expressamente:
    não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
    pois em tempo de desordem sangrenta,
    de confusão organizada,
    de arbitrariedade consciente,
    de humanidade desumanizada,
    nada deve parecer natural

    nada deve parecer impossível de mudar."

    (Poema: Bertold Brecht - Nada é impossível mudar)

    Bergson comenta ainda que, a filosofia jamais admitia a criação continua da imprevisível novidade e, que muitas vezes pensamos de forma errada, portanto, é preciso inverter, partir da mudança do movimento e não ficar olhando as paradas e os estados das coisas como se fossem fotografias daquilo que se move, o que vale é o movimento.

    "A toda hora rola uma história
    Que é preciso estar atento
    A todo instante rola um movimento
    Que muda o rumo dos ventos
    Quem sabe remar não estranha
    Vem chegando a luz de um novo dia
    O jeito é criar um outro samba
    Sem rasgar a velha fantasia

    Mulher é isso aí
    Só existe a gente mesmo
    Levando um barco pesado
    Apesar do agitado mar
    Sem a lua e seu encanto
    Ao sabor da ventania
    Mesmo no gelo da noite
    Meu coração não esfria
    E quando o vendaval passar
    Acharemos uma ilha
    E até quando Deus deixar, mulher
    Iremos tocando a vida"

    (Musica: Paulinho da Viola - Rumo Dos Ventos
    http://www.youtube.com/watch?v=PYLa1KrtiLo)

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  4. As grandes transformações das vidas algumas ocorrem em datas marcadas (como nas viradas de ano), outras ocorrem em situações inesperadas, umas são acompanhadas de um agradável sentimento de felicidade – naquelas ocasiões em que pessoas voam alto, todas as preocupações desaparecem-, outras são viradas negativas, em sua solidão alguns passam a vegetar entre as coisas.
    (obs.: existem vários tipos de solidão, e dependendo de quem a experimenta, ela pode ter significados diferentes.)

    O cantor italiano Giorgio Gaber fala em certa canção (“o grão de milho”) que mudar é dificílimo, que é impossível fugir do destino de ser congelado nos pensamentos dos outros, ele comenta essa idéia usando como metáfora um milho.

    O milho que não escolheu ser amarelo, que não se questiona, não se recorda e depois continua a ser amarelo para ser fiel a quem o olha. A sociedade nos força a repetição, ao continuísmo, as pessoas querem modelos conhecidos, coisas familiares, querem sempre ouvir a canção da mesma forma quando escutaram pela primeira vez. Somos congelados no pensamento alheio. Giorgio diz que, muitos amam a fixação, amam a petrificação, a imutabilidade, já que assim se sentem mais confiante, seguro, corajoso, há um ponto de apoio em que se resguardar, existe mais chances de ser aceito, pois isso deriva frequentemente do susto impactante que as mudanças trazem ao mostrar algo novo e, talvez, desconhecido, que ainda não foi experimentado, aprovado, gerando receio quanto ao resultado desejado, medo, insegurança, duvida. No entanto, ao se assustar, transformamo-nos (mas nem sempre isso acontece como esperávamos). Mas acima de tudo, para mudar, diz D. H. Lawrence, "é preciso queimar":

    "Você está querendo ser extinto, apagado, excluído,
    Feito nada?
    Você esta querendo ser feito nada?
    Mergulhado em oblivio?

    Se não quer, você nunca mudará de verdade?

    A fênix renova sua juventude
    Somente quando é queimada viva, queimada até ser
    Feita

    Em flóculos de cálida cinza.

    Então o leve agitar-se , no ninho, de um mínimo rebento
    Recoberto de fina penugem, como cinza flutuando,
    Revela que a fênix começa a renovar a sua juventude, como
    A águia-
    Pássaro imortal."

    (Poema: D. H. Lawrence - a fênix)

    Queimada até virar cinza a fênix se renova. As mudanças são por isso temida, mas são necessárias, afinal, são a marca de que estamos vivos, de que não andamos por ai como falecidos a quem não avisaram a que morremos.

    As mudanças são marcas de nossa vida, normalmente elas são provocadas por agentes externos, pelo ambiente externo que nos fica enviando o tempo todo àquilo que os especialistas chamam de "irritações". Irritações que tentamos continuamente neutralizar, mas que em certas circunstancias e após certo tempo provocam em nós verdadeiros transformações - e estas, talvez, sejam um sinal de que estamos vivos e nos renovando.

    As mudanças que vem de fora, não raro, são as que nos arejam, que nos atualizam, que nos mantém jovem apesar da idade. Nosso desacerto com o mundo, mesmo tentando deter-lo, mesmo tentando força-lo manter parado como alguns gostariam, ele se movimenta, ele gira o tempo todo.

    Às vezes, o fim de algo nos deixa um tanto triste, fazem-nos pensar no balanço, nas avaliações de coisas que se quis fazer e que não foram feitas, sente-se o tempo passando e nossa chance de realizá-las se foi.

    Nem sempre somos os senhores de nossa virada, muitas vezes só a percebemos quando sentimos seus efeitos mais tarde em nossas vidas, outras vezes acontecimentos fortes nos levam a realizar mudanças. A vida pode deixar poucas opções, mas o espírito tem o arbítrio; voar com a borboleta, ou manter-se encerrado no casulo de uma lagarta mal-humorada.

    (obs.: arbítrio não inteiramente livre, e sim sempre associado num contexto mais amplo).

    bisous dans le coeur*

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